A crise do mercado de subprime (ou alto risco) americano originou-se na expansão do crédito para pessoas de menor poder aquisitivo dos EUA, principalmente no setor imobiliário. As hipotecas dos imóveis dos consumidores de crédito eram securitizadas e renegociadas ou dadas em garantia em negociações entre a instituição que cedia o crédito com outras instituições. Esse título, ou seja, esse derivativo acabou originando um derivativo dele mesmo. A transferência do risco acaba gerando um efeito dominó exponencial, pois a transferência do risco entre os players do mercado acaba comprometendo a liquidez de vários personagens ao mesmo tempo. Quando a inadimplência eclodiu, as seguradoras e os bancos se viram diante de uma bolha financeira, pois os derivativos, de alto risco, não se liquidaram. E instituições históricas e grandiosas faliram em poucos meses e semanas.
Essa crise no sofisticado mercado financeiro de subprimes, ou derivativos de derivativos, afeta o mercado global de maneira diferente, de acordo com o envolvimento – ou não – dos outros players na cadeia. Para o governo dos Estados Unidos, resta amargar com o desembolso de 1 trilhão de dólares para resgatar os sobreviventes da crise, com a expectativa de curto e médio prazo (provavelmente até meados do segundo semestre de 2009) de recessão. A retomada do crescimento do PIB, reconstrução do Fundo Soberano Americano, retorno de investimentos e financiamentos mais volumosos no mercado o país deve ocorrer de forma mais significante na virada de 2009 para 2010.
Para os demais players, como o grupo de países emergentes BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – o impacto da crise foi sentida pela falta de crédito disponível junto aos fornecedores americanos e pela recessão global, e não pela fragilidade dos fundamentos econômicos destes países. Segue abaixo os principais reflexos da crise no grupo BRIC:
Brasil
Cenários do 3° trimestre de 2008 e 2009: Contratos efetivados pelo governo federal elevando os gastos públicos em 13,1% para 2009. O cálculo, segundo o economista-chefe da corretora Conveção, Fernando Montero, é feito da seguinte maneira: considerando que a previsão pessimista do governo do aumento no PIB é de 3,5% multiplica-se esse valor por dois (reflexo no aumento da arrecadação) soma-se com o IPCA de 2009 de 5,5% = 12,5%, próximo dos 13,1% do cálculo do aumento das despesas, mas já com déficit nas contas públicas de 0,6% do PIB / fuga dos investidores internacionais que repatriam suas divisas para os mercados de origem para assegurar liquidez e diminuir riscos o que gera escassez de crédito, que impactará nos investimentos que aportarão no curto e médio prazo (devendo refletir num PIB real menor em 2009, o que aumentará ainda mais o déficit público) / dólar em alta / commodities em baixa / inflação com viés de alta / aumento dos juros / cenário até favorável a exportação, mas com a economia global em recessão, não haverá demanda.
Rússia
Cenários do 3° trimestre de 2008 e 2009: O governo russo põe à prova a economia do país forçando a paralisação das duas principais bolsas de valores, a MICEX e RTS, para frear a queda dos índices que são os piores desde a crise russa de 1998 / a cotação do preço do petróleo russo caiu 40% com relação a setembro de 2007 (embora boa parte dessa queda se deva à fuga de investimentos após a invasão à Geórgia) / o ministro das finanças russo promete US$ 60 bilhões para ajudar bancos locais.
Índia
Cenários do 3° trimestre de 2008 e 2009: O pânico do sistema financeiro global chega às bolsas de valores indianas (fechamento negativo 5% em 18/09/08) / a HINDUSTAN PETROLEUM vende o barril de petróleo a menos de US$ 92,00 em 16/09/08 / as ações de empresas indianas que lideram o mercado de softwares caíram drasticamente em 12/09/08 devido ao temor da valorização do dólar frente ao euro possa afetar o crescimento dos rendimentos na exportação desses produtos / a seguradora americana AIG Inc – que precisou de US$ 85 bilhões de dólares emprestados do governo dos EUA para não falir – possui duas joint-ventures com o conglomerado indiando TATA, o que gera expectativas sobre possíveis desvalorizações das ações quando e se houver descapitalização do grupo TATA.
China:
Cenários do 3° trimestre de 2008 e 2009: Ações caem e os investidores estão preocupados com as repercussões da falência da Lehman Brothers e o escândalo do leite contaminado com produtos químicos / os investidores chineses não recuperaram a confiança mesmo depois que o governo americano resgatou o AIG com US$ 85 bilhões, o que ajudou a levantar os mercados no Japão e na Coréia do Sul / o índice das ações do continente asiático foram negociadas em Hong Kong abaixo 6,2%, menor índice desde março de 2007 / o governo selecionou ações das principais empresas daquele país e designou a criação de uma agência governamental para acompanhar e comprar essas ações caso suas cotações despenquem / a venda de automóveis na china teve o pior desempenho em dois anos devido ao aumento no preço dos combustíveis e da queda da demanda no mercado / a maior refinaria da Ásia que é o segundo maior consumidor de petróleo do mundo, a SINOPEC CORP, vai reduzir o volume de refino e de importação de óleo cru em 10% para baixar os volumes de seu estoque / a maior produtora de níquel da China, a Jinchuan Group ltd, vai reduzir produção em 10 mil toneladas por ano, para equiparar-se a fraca demanda mundial.
Como se pôde observar, os impactos no grupo BRIC se deu na ausência de oferta de crédito para continuidade dos projetos de expansão econômica dos países, e pela recessão global, o que ocasionou resgates dos investimentos por receio de mais quebras e/ou para recuperar liquidez dos investidores.
A tendência no curto prazo deve ser uma visão mais simplista e cautelosa para investimentos. A volta da rentabilidade dos papéis agrícolas, os investimentos a auferir com biomassa e até mesmo imóveis (com perspectivas de médio a longo prazo) podem ser bastante lucrativas nesse momento de baixos índices. Com essas considerações, a recessão global até 2009 ocasionará:
a) menos consumo de derivados de petróleo (aumento dos estoques e queda das ações);
b) os recursos escassos dos consumidores podem elevar a demanda do combustível oriundo de biomassa como álcool, geralmente mais baratos que os derivados de petróleo;
c) a tendência de repatriar investimentos em outros países deve oxigenar as economias nacionais com divisas, elevando o consumo de alimentos e, conseqüentemente, as ações dessas empresas;
d) os setores infra-estruturais como energia, construção civil, telecomunicações, transportes, terão que se superar para tornar suas operações mais rentáveis sem ou com pouco crédito. O que elevará as ações de algumas empresas desses segmentos.
Por fim, do entendimento da crise do subprime americano, façamos como Wu Xiaoling, ex-representante do Banco Central Chinês, que desperta para a necessidade de mecanismos regulatórios atuantes para o mercado e que as atividades sofisticadas com derivativos de derivativos devem ser evitadas. Realmente, a tão aclamada auto-regulação do mercado não existe!!! O mercado é falho. Soros sempre teve razão.
Fontes: Reuters e ValorEconômico